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Quando o Direito exige o impossível: A hiperresponsabilização está destruindo a medicina, os hospitais e as relações humanas?

Quem acompanha o Blog e nossos artigos deve ter se acostumado a ouvir falar de “responsabilidade objetiva” e “responsabilidade subjetiva”, que são institutos do Direito que servem a avaliar o comportamento e os deveres de pessoas em sociedade, como meio de obrigar a reparar danos.

Em verdade, o Direito poderia muito bem se chamar “Obrigação”, pois a existência de um “direito” a um pressupõe a correspondente “obrigação” a outro.

E é justamente a falta de percepção desse ponto que provavelmente está gerando o desgaste completo das relações jurídicas, chegando-se a um ponto a poucos passos da quebra.

Compartilho, abaixo, texto do médico Marcelo Ferreira Caixeta publicado no Facebook em 19/05/2026, com uma exposição de situações práticas enfrentadas no hospital psiquiátrico do qual faz parte, relacionando com questões jurídicas também enfrentadas. Leia e refita (link https://www.facebook.com/100002869989632/posts/26167197459625897/?rdid=sCXEoidZHxyQkOpO):

Eu tô abismado com um paciente adolescente que já veio três vezes da Inglaterra internar na nossa “bostinha” de hospital psiquiátrico, no interiorzão do Brasil mais profundo, no goiazão-fazenda-asfaltada.

E olha que não estou falando de Londres mandar paciente para Albert Einstein, Sírio-Libanês ou Hospital das Clínicas de São Paulo.

Estou falando de vir parar aqui no meio do cerrado, numa estrutura pequena, pobre, filantrópica, cheia de dificuldades, processos, improvisos e sofrimento.

O mais impressionante é o seguinte:

só depois da terceira internação conosco, e só depois que eu parei de internar porque não queríamos ficar ganhando dinheiro sem continuidade de tratamento, foi que esse menino finalmente viu um psiquiatra na Inglaterra e teve contato com hospital psiquiátrico lá.

Antes disso:

– psicólogo;

– assistente social;

– técnico em saúde mental;

– manejo comunitário;

– protocolos sem fim

– filtros;

– camadas burocráticas.

Psiquiatra mesmo?

Hospital psiquiátrico mesmo?

Quase nada.

E isso me fez pensar profundamente numa coisa que quase ninguém quer discutir.

O sistema moderno, sobretudo quando vai ficando hiperestatizado, vai deixando lentamente de querer pacientes.

Isso parece absurdo.

Mas é exatamente isso que acontece.

Num sistema privado normal, o cliente é desejado.

O hospital quer atender.

O médico quer resolver.

O empreendedor quer fazer o serviço funcionar.

Mas no sistema hipercontrolado:

– o paciente vira custo;

– risco;

– ameaça jurídica;

– problema administrativo;

– possibilidade de processo;

– problema estatístico;

– problema político.

Então o sistema começa silenciosamente a querer se livrar do paciente.

E isso ocorre justamente nos países mais “civilizados”.

O paciente grave vai sendo empurrado:

– para triagens;

– protocolos;

– equipes intermediárias;

– técnicos;

– psicólogos;

– manejo territorial;

– acompanhamento social;

– “evitar internação”;

– “evitar psiquiatra”;

– “evitar hospital”.

Tudo isso vendido como humanização.

Mas muitas vezes o que existe ali é simplesmente:

racionamento disfarçado de filosofia assistencial.

E eu comecei a perceber outra coisa.

Isso tudo está profundamente ligado ao modo como o direito moderno começou a funcionar.

Recentemente eu estava lendo Heidi Hurd, uma filósofa do direito americana, discutindo um problema interessantíssimo:

às vezes o direito obriga até pessoas moralmente corretas a pagar pelos danos que causaram.

Ela dá exemplos clássicos:

– alguém que salva vidas mas danifica propriedade;

– alguém que age corretamente mas ainda assim precisa indenizar;

– pessoas não culpadas que acabam juridicamente responsabilizadas.

E aí eu pensei:

meu Deus…

isso está destruindo a medicina real.

Porque na prática o que acontece hoje?

Se um epiléptico grave cai:

→ culpa do hospital.

Se um psicótico foge:

→ culpa do hospital.

Se um paciente suicida tenta se matar:

→ culpa do hospital.

Se uma paciente em surto pula do segundo andar:

→ culpa do hospital.

Uma paciente nossa, abandonada pela família, entrou em surto e pulou do segundo andar. Quebrou o pé. Fomos processados.

A população vibra.

O advogado cresce.

O juiz se sente pressionado.

Mas ninguém pergunta:

como se cuida humanamente de pacientes graves sem risco nenhum?

Se colocamos grades:

→ dizem que é prisão.

Se não colocamos:

→ dizem que faltou segurança.

Se restringimos:

→ violação de direitos humanos.

Se não restringimos:

→ negligência.

Os bombeiros podem punir se houver grades demais.

A Justiça pode punir se houver grades de menos.

Veja a insanidade lógica que foi criada.

Outro dia citei esse exemplo e uma leitora disse seriamente que nosso hospital deveria ter piso acolchoado em toda a extensão.

Outro falou:

“por que vocês não têm ressonância 3 tesla igual Harvard?”

Percebem o que aconteceu?

Criou-se uma lógica jurídica infinita:

sempre será possível dizer:

– “por que não fizeram mais?”

– “por que não deram o melhor do mundo?”

– “por que não garantiram segurança total?”

Mas segurança total não existe.

Controle total não existe.

Psiquiatria sem risco não existe.

O direito moderno começou a exigir o impossível.

E isso vai destruindo justamente quem ainda tenta cuidar.

Porque o pequeno hospital quebra.

O médico desiste.

O empreendedor foge.

Ninguém quer psiquiatria pesada.

Ninguém quer dependente químico.

Ninguém quer psicótico grave.

Ninguém quer epilepsia refratária.

Ninguém quer suicida.

Aí o Estado cresce dizendo:

“estão vendo? Precisamos estatizar.”

Mas muitas vezes foi o próprio sistema jurídico-estatal que destruiu os pequenos antes.

E então sobra:

– hospital gigante;

– burocracia;

– protocolo;

– funcionário desmotivado;

– filtro para impedir acesso;

– fila infinita;

– psiquiatra escondido do paciente.

Porque o sistema estatal, diferente do privado, frequentemente não quer cliente.

Quer evitar cliente.

O cliente virou ameaça ao orçamento.

E aí aparece o maior paradoxo de todos:

o sistema que diz existir para o povo começa lentamente a se proteger do próprio povo.

A medicina vai deixando de ser:

– vínculo;

– responsabilidade pessoal;

– coragem clínica;

– dedicação subjetiva.

E vai virando:

– protocolo;

– defesa jurídica;

– medicina defensiva;

– medo de processo;

– filtro burocrático.

O médico deixa de pensar:

“como tratar?”

E passa a pensar:

“como sobreviver juridicamente?”

Isso destrói a alma da medicina.

O mais curioso é que nós, aqui no Brasil pobre, ainda conseguimos muitas vezes fazer uma psiquiatria mais humana que sistemas bilionários europeus.

Porque ainda existe:

– improviso humano;

– vínculo;

– presença;

– sacrifício pessoal;

– responsabilidade subjetiva;

– médicos que ainda assumem casos difíceis.

Mas o Estado brasileiro também caminha perigosamente nessa direção.

As organizações sociais vão ficando dependentes:

– de políticos;

– de contratos públicos;

– de grupos econômicos ligados ao Estado.

O controle cresce.

A responsabilidade jurídica cresce.

A burocracia cresce.

A iniciativa privada vai sendo esmagada.

E depois todos perguntam:

“por que faltam hospitais?”

“por que ninguém quer empreender?”

“por que não há leitos psiquiátricos?”

Talvez porque o sistema passou a punir exatamente aqueles que ainda tentam fazer alguma coisa concreta.

A preocupação e a crítica são indispensavelmente pertinentes, vista por alguém que sofre na pele toda a situação.

Há anos tenho expressado minha preocupação pessoal com o que chamo de “maximização jurídica”, por falta de termo melhor, que é a percepção de que não há situação humana que o Direito Moderno não queira abarcar de forma grave, eloquente e de responsabilização forçada, tornando o sistema em uma espécie sem volta de sociedade policial.

A figura associada ao Direito (e à Justiça) é a deusa grega Themis, cega e empunhando uma espada a fim de evitar desequilíbrio na balança que segura com a outra mão. É a divindade associada às leis divinas e eternas que poderíamos associar hoje ao Direito Natural, hoje em franco desuso em prol do Direito Positivo e vertentes derivadas, todas ligadas às leis humanas, vindas tão somente da vontade humana – vale dizer: vontade política e de grupos de pressão.

Por isso me parece que a figura que melhor representa o Direito hoje talvez seja Saturno (Cronos, na mitologia grega), pois é o deus terrestre que destrona as leis divinas (leis da realidade) e devora os próprios filhos (as próprias criações), da mesma forma como o Direito hoje tudo devora e aspira devorar.

Bruno Barchi Muniz – é advogado, graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Santos, Pós-Graduado em Direito Tributário e Processual Tributário pela Escola Paulista de Direito (EPD), membro da Associação dos Advogados de São Paulo. É sócio-fundador do escritório Losinskas, Barchi Muniz Advogados Associados – www.lbmadvogados.com.br

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